Sinusites na Infância
Carlindo de Souza Machado e Silva Filho - Vice-Presidente
da SOMERJ
Conceito
Sinusite Bacteriana Aguda: É a infecção
bacteriana dos seios paranasais que dura menos de 30 dias
e cujos sintomas desaparecem completamente.
Sinusite Bacteriana Subaguda: É a infecção
bacteriana dos seios paranasais que dura entre 30 e 90 dias
e cujos sintomas desaparecem completamente.
Sinusite Bacteriana Aguda Recorrente: São episódios
de infecção bacteriana dos seios paranasais
que duram menos de 30 dias e são separados por intervalos
assintomáticos de, no mínimo, 10 dias.
Sinusite Crônica: São episódios de inflamação
dos seios paranasais que duram mais de 90 dias, com os pacientes
mantendo sintomas respiratórios persistentes, tais
como: tosse, rinorréia e congestão nasal.
Sinusite Bacteriana Aguda Superposta a Sinusite Crônica:
Pacientes com sinusite crônica que apresentam novos
sintomas respiratórios, os quais, quando o paciente
é tratado com antibiótico, desaparecem, permanecendo
apenas, os sintomas já existentes.
Etiologia
As sinusites virais são muito mais freqüentes
do que as de origem bacteriana. Os vírus mais presentes
são o Rhinovírus, o Adenovírus, o Vírus
Sincicial Respiratório e o Parainfluenza.
As Sinusites bacterianas são, geralmente, secundárias
às infecções virais aproximadamente
0,5 a 10% dos casos de rinosinusite viral, em crianças,
evoluem para infecção bacteriana (Berg Carenfelt,
Rysted, et al 1986; Dingle Badger and Jordan, 1964; Gable,
Jones, Floor, et al., 1994; Gvaltney, 1996)
As principais bactérias que causam sinusite bacteriana
aguda são as aeróbias que, habitualmente,
colonizam a cavidade nasal: Streptococcus pneumoniae, Haemophilus
Influezae e Moraxella Catarrhalis.
Quando há obstrução prolongada dos
seios paranasais, podemos ter como agentes etiológicos
o Stathilotoccus aureus e bactérias anaeróbias.
Em pacientes imunodeprimidos e diabéticos, devemos
estar atentos para possíveis infecções
por fungos: Astergillus sp e Nocardia sp.
Fatores
predisponentes
Polipose Nasal; Rinite; Infecções de vias
áreas superiores (IVAS); Hipertrofia de adenóides;
Refluxo Gastro Esofágico (RGE); Idade < 6 anos;
Mucoviscidose; Síndrome de Kartagener; Diabetes Mellitus;
Imunodeficiência.
Quadro
clínico
Febre (> 39ºC); Secreção pulenta nasal
ou pós-nasal; Obstrução nasal; Tosse;
Cefaléia; Dor facial; Diminuição do
Olfato; Diminuição do paladar; Halitose.
Complicações
Celulite Orbitária; Celulite Periorbitária;
Osteomelite do seio frontal; Osteomilite do seio maxilar;
Meningoencefalite; Abcesso cerebral; Tromboflebite do seio
cavernoso.
Diagnóstico
Houve um aumento, nos últimos anos, na incidência
de sinusite bacteriana aguda na criança. Para isso
muito contribuíram situações que aumentaram
a incidência das doenças respiratórias
na infância como um todo: desmame precoce, escolarização
precoce e aumento da poluição. Porém,
vemos, com grande freqüência, um exageno no diagnóstico
da sinusite bacteriana aguda com base em sintomas isolados
e/ou resultado de exames de RX de seios da face.
O diagnóstico de sinusite bacteriana aguda é
baseado em critérios clínicos. Devemos considerar
que nenhum sinal e sintomado é específico
para o diagnóstico de sinusite.
Só devemos suspeitar da doença em crianças
que apresentam sintomas persistentes ou severos.
Sintomas persistentes são aqueles que duram mais
de 10 a 14 e menos de 30 dias. Esses sintomas incluem secreção
nasal ou pós-nasal e tosse freqüente, com exacerbação
noturna.
Sintomas severos são febre acima de 39ºC, rinorrêia
purolenta por 4 ou 4 dias consecutivos comprometendo o estado
geral.
Devemos sempre valorizar fatores predisponentes tais como
rinite, polipose nasal, RGE e hipertrofia de adenóides.
Em pacientes com episódios freqüentes de sinusite
bacteriana aguda ou em presença de sinusite crônica
devemos avaliar a possibilidade de Imunodeficiência,
Diabetes Mellitus, Síndrome de Kartagener ou Mucoviscidose.
Diagnóstico
por imagem
Os exames de imagem não são necessários
para o diagnóstico de sinusite bacteriana aguda,
tendo sua indicação muito limitada. A valorização
excessiva de exames radiológicos, em detrimento
da clínica, pode levar a diagnósticos incorretos
de sinusite.
RX de seios da face
Não é necessário para o diagnóstico
de sinusite bacteriana aguda, tendo indicação
muito discutível, principalmente, em crianças
abaixo dos seis anos, já que tem baixa especificidade.
Devemos considerar que pacientes sem sinusite bacteriana
aguda podem apresentar alterações radiológicas
compatíveis com sinusite (espessamento mucoso >
4mm, nível líquido ou opacificação
completa de um ou mais seis paranasais). Além disso,
podemos encontrar resultados falso negativos, dependendo
do seio paranasal afetado.
Tomografia
computadorizada
É um exame mais eficaz do que o RX de seios da face,
porém, apresenta algumas dificuldades para sua realização:
alto custo, dificuldade de acesso ao exame, níveis
elevados de radiação e freqüente necessidade
anestesia geral para sua realização, notadamente
em crianças com menos de três anos de idade.
É indicada em caso de sinusite recorrente, em presença
de complicações ou quando há possibilidade
de indicação de cirurgia.
Ressonância
nuclear magnética
Uso muito restrito, sendo indicada apenas quando há
suspeita de abscesso, trombose, tumor ou sinusite fúngica.
Diagnóstico
laboratorial
Hemograma completo: Não é necessário
para o diagnóstico de sinusite bacteriana aguda não
complicada.
Cultura de secreção de nasofaringe: Não
é útil para o diagnóstico de sinusite
bacteriana aguda, já que microorganismos por ventura
encontrados não são, na maioria das vezes,
o verdadeiro agente etiológico envolvido.
Cultura de aspirado dos seios da face: É o exame
mais específico para o diagnóstico de sinusite
bacteriana aguda, não sendo, porém, recomendado
nos casos não complicados. Sua indicação
se restringe a situações específicas:
crianças graves, que não respondem à
antibioticoterapia empirica; pacientes imunodeprimidos e
em casos de complicação intracranianas.
Diagnóstico
diferencial
IVAS de repetição; Rinites; Asma Brônquica;
Desvio de Septo; Corpo estranho em fossa nasal; Polipose
nasal; Acresia de coana; RGE.
Tratamento
Antibioticoterapia
A droga de primeira escolha na sinusite bacteriana aguda
não complicada na criança é a amoxacilina
(50 mg/kg/dia VO por 10 dias). Em locais com prevalência
de pneumococo resistente devemos aumentar a dose para 80
a 90 mg/kg/dia. Quando há alergia a betalactâmicos
podemos utilizar claritromicina (15 mg/kg/dia VO por 10
dias) ou sulfametoxazol + trimetoprin (40 mg/kg/dia da sulfa
VO por 10 dias).
Como drogas de segunda escolha, usadas quando não
houve resposta ao tratamento inicial ou em episódios
com intervalo inferior a 6 semanas entre eles, podemos usar
amoxacilina / ácido clavulânico (50 mg/kg/dia
de amoxacilina VO por 10 a 14 dias) ou cefuroxima (40 mg/kg/dia
VO por 10 a 14 dias). Em casos em que a droga inicialmente
usada não tenha sido ela, podemos utilizar a amoxacilina.
Se houver alergia a beta-lactâmicos devemos usar a
claritromicina.
Em casos de sinusite crônica podemos utilizar Amoxacilina
+ Ácido clavulânico por 21 dias ou Clindamiana
(40 mg/kg/dia VO por 21 dias).
Sempre que dispusermos de resultados confiáveis de
cultura (aspirado de seio paranasal), devemos, dentro do
possível, acompanhar o resultado do antibiograma.
Anti-histamínicos: Não há comprovação
de sua eficácia, quando utilizamos em pacientes sem
alergia.
Descongestionantes
locais ou sistêmicos
Não há comprovação de vantagem
significativa em sua utilização e, ainda,
podem ocasionar rinite vasomotora, quando usados por mais
de 5 dias.
Anti-inflamatórios
não hormonais
Não há comprovação de que a
utilização de corticóide sistêmico,
na sinusite bacteriana aguda, seja benéfica.
Não há consenso na utilização
de corticóide tópico nasal.
Soluções
salinas
As soluções salinas nasais podem ser utilizadas
amornadas, quando há secreção espessa
ou abundante. Sua utilização frequente e continuada
pode levar a rinite vasomotora.
Fontes
e referências bibliográficas recomendadas:
1) Clinical Practice Guideline: Management of Sinusitis
American Academy of Pediatrics – Pediatrics - Volume
108, Number3 September 2001,pp 798-808 (79 references).
2) Parameters for the diagnosis and management of sinusitis
Ann Alergy Asthma Imunol. 1998. Dec 102( 6Pt 2) S107 –
S 1044 (377 references).
3) Diagnosis and management of acute Bacterial Sinusiteis:
children Sumary of the Alberta Clinical Practice Guiteline,
December 2000.
4) Evidence based clinical practice guideline for children
with agude bacterial sinusitis in children 1 to 18 years
of age Cincinnat(OH); Cincinnat Children’s Hospital
Medical Center, 2001 - Apr 27.17p (234 references).