Repensando a prática
da Medicina: a quem não interessa o credenciamento
universal?
Paulo Cesar Fontes - Presidente da Sociedade Brasileira
de Oftalmologia
Fatos:
I - O Estado do Rio de Janeiro tem hoje mais de 15 faculdades
de Medicina que graduam ± 2.000 médicos /
ano.
II - Sabe-se que a qualidade da formação médica
de algumas destas faculdades está muito abaixo da
que seria um mínimo aceitável e, no entanto,
elas continuam abertas e funcionando. E, ao que parece,
ainda se pretende abrir mais cursos.
III - A imensa maioria dos novos profissionais continua
atuando nas metrópoles e poucos se dispõem
a ir para o interior.
IV - O número de vagas para a pós-graduação
em regime de residência médica vem diminuindo
no Estado.
V - O custo da moderna tecnologia e da Medicina privada
muito alto, concomitante com a deterioração
da Medicina pública, praticamente “empurra”
a população a contratar um plano de saúde.
Conseqüências previsíveis:
I - Grande concentração de médicos
nas grandes cidades, em sua maioria mal formados.
II - Competição Predatória.
III - Baixa na qualidade da assistência médica
prestada.
IV - Desvios de conduta médica.
V - Dependência dos planos de saúde para exercer
a medicina.
O número ideal de oftalmologistas por habitante,
segundo a O.M.S. (Organização Mundial de Saúde),
é de 1/20000. A cidade do Rio de Janeiro tem 1/4996
e, a cidade de Niterói, 1/2997.
Por estes números salta à vista e foge ao
bom senso não perceber que estão se formando
especialistas demais e urge reflexão sobre este fato.
Ao contrário do passado não muito distante,
em que o paciente escolhia o seu médico livremente
e com ele estabelecia uma relação de confiança,
hoje, ao se associar a um plano de saúde, ele recebe
um “livrinho” que determina quais médicos
ou clínicas/hospitais terá acesso, sem nenhuma
referência da qualificação destes profissionais
ou estabelecimentos. Às vezes, ainda é obrigado
a mudar seu local de tratamento porque houve um descredenciamento,
sabe-se lá por qual critério.
Algumas operadoras de planos de saúde, espertamente,
têm uma rede credenciada pequena, fazendo com que
os médicos passem a ter volume significativo de pacientes
deste convênio, criando grande dependência financeira
desta fonte pagadora, e dela se tornem “reféns”.
Começam então estes a fazerem concessões
verdadeiramente absurdas como concordar em operar apenas
em alguns poucos lugares “sugeridos” e a aceitar
glosas lineares ou descontos “compulsórios”
em suas faturas, ou ainda concordar em usar insumos de 2a
ou 3a categorias.
Para redução de custos operacionais, os planos
de saúde passaram a exigir que médicos se
tornassem pessoas jurídicas e, desde então,
foram criadas duas categorias de médicos: os que
têm convênios e os sem convênios.
Uma vez que se tenha contrato em nome da pessoa jurídica,
o médico passa a ser detentor de um “feudo”
de pacientes, transmissível à outra geração
ou, como diz o Dr. Marcos Sarvat, passa a ter sua “capitania
hereditária”.
Um médico, que tenha se formado na melhor faculdade
de Medicina do mundo e tenha feito sua pós-graduação
para obtenção de seu título de especialista
de maneira brilhante, se chegar ao Rio de Janeiro hoje e
seu pai não for detentor de uma dessas “capitanias”,
estará fadado a virar subempregado de uma destas
estruturas em que o detentor do poder às vezes nem
médico é, apenas foi herdeiro.
Sem querer ser saudosista, este é um modelo justo?
Melhor do que tínhamos? Evoluímos ou regredimos?
Se temos como premissa que melhor remuneração
e reconhecimento da sociedade são fatores que induzem
as mais brilhantes mentes a desejarem entrar para esta atividade,
não estaremos perdendo possíveis médicos
brilhantes para outras profissões?
Reconhecemos o papel dos planos de saúde na assistência
médica suplementar, principalmente, por proporcionar
ao cliente a possibilidade de ter um orçamento pré-estabelecido,
mas, por omissão ou conformismo da categoria médica,
eles se tornaram tão poderosos que passaram a ditar
as regras da assistência médica sem consultar
aos médicos, inclusive de quanto seria sua remuneração!
Talvez seja a única atividade em que quem presta
o serviço não estabelece sua remuneração
e sim quem o está contratando!
Não temos que ser inimigos dos planos de saúde,
mas também não podemos aceitar passivelmente
regras que não fomos chamados a discutir e que só
nos prejudicam.
Sem
pressão não conseguiremos nada.
O movimento dos médicos do Estado do Rio de Janeiro
para efetivo início da sua Central Médica
de Convênios está frutificando em outros estados.
Você faz parte dela ou será que por sua causa
veremos a perpetuação da “ditadura do
livrinho” e das “capitanias hereditárias”?