A importância
dos laboratórios de desenvolvimento de habilidades
no contexto da cirurgia contemporânea
Alberto Schanaider - Professor do Dept. de Cirurgia Geral
da UFRJ e do IPGMCC
Preliminarmente,
afigura-se oportuno considerar a estrutura curricular atual
da grande maioria das nossas Faculdades e que beiram a marca
das 120 escolas. Recursos tecnológicos inimagináveis
no século passado dominam as práticas médicas
do século XXI, de modo avassalador. Observamos a
“fetichização” da técnica
e do conhecimento científico. Esta hegemonia das
inovações tecnológicas em crescimento
exponencial resulta na desumanização da Medicina.
Tal fato é deveras preocupante, porquanto o exercício
profissional do esculápio exige a construção
de uma relação com o conhecimento que o leve
ao efetivo domínio das dimensões críticas
e não apenas à assimilação das
possíveis aplicações momentâneas.
Urge, também, que tenhamos profissionais capazes
de adquirir suas competências, ou seja “um conjunto
de atributos (conhecimentos, valores, habilidades e atitudes)
que permitam resolver problemas e tarefas de complexidade
crescente em cenários diversos de trabalhos, de forma
crítica, autônoma e flexível, absorvendo
situações novas, dirimindo conflitos e que
estejam direcionados para a construção de
uma postura ética, capaz de integrar e confrontar
os aspectos cognitivos a realidade e fazer propostas para
a melhoria do atendimento à saúde”.
É sob este prisma que se enfatiza a relevância
do laboratório de competências como agente
de iniciativas transformadoras de práticas curriculares
essenciais para a formação médica.
Não há mais espaço para profissionais
direcionados a dar ênfase aos exames complementares,
ao diagnóstico e ao tratamento com fármacos
de última geração. Neste modelo, a
relação médico-paciente se esvai. Geram-se
repetidores de informações, acríticos
e anódinos, produtores de uma medicina de alto custo
e eficiência questionável. Estes médicos
destinam pouca atenção aos aspectos bioéticos
e dominam muito pouco a epidemiologia, a metodologia científica,
a bioestatística, a saúde ocupacional e comunitária.
Forjam-se, em proporções inexpressivas, pesquisadores
eventuais e educadores esporádicos. Faz-se mister
que o médico do terceiro milênio esteja familiarizado
não só com a prática assistencialista,
mas saiba valorizar a prevenção e contribuir
para a eficácia do sistema de saúde, ciente
da realidade que o cerca. Precisamos de um profissional
que compare e avalie, de modo constante, estime a probabilidade
de êxito e considere o custo/benefício entre
diversos tratamentos, modificando sua conduta em prol do
paciente. Neste contexto, sobressai a necessidade de um
locus de treinamento onde princípios fundamentais
da técnica e da ética sejam apreendidos e
debatidos, sem submeter o paciente a constrangimentos, desconfortos
e a eventuais iatrogenias (do grego iatros = médico
e gênesis = gerado pelo). Lembremos então da
expressão oriunda do latim: Primum non nocere (Em
primeiro lugar não prejudicar). Não basta
evitar o dano, é preciso atuar, também, segundo
o princípio da beneficência, utilizando toda
a competência adquirida, o máximo zelo e o
melhor de nossa capacidade profissional em benefício
do paciente. Respeito, dignidade, privacidade e saber ouvir
são atributos essenciais ao exercício profissional.
Romantismos a parte, não nos esqueçamos, por
certo, da remuneração justa e digna em reconhecimento
ao bom profissional.
As Declarações (de Nurenberg, Universal dos
Direitos Humanos, e tantas outras) tornam claro que nenhuma
imposição, de qualquer natureza, deve afligir
o próximo, que não se admite uma curva de
treinamento em anima nobile, sem salvaguardas essenciais
somente alcançáveis mediante práticas
de ensino-aprendizagem em modelos alternativos, simulações
com o uso de animais ou mesmo manequins, mimetizando condições
próximas ao real. A cirurgia contemporânea
está evoluindo a largos passos, vide a laparoscopia,
a robótica, a perspectiva da nanocirurgia. O benefício
da seqüência pedagógica “demonstração
- realização do procedimento - repetição
do procedimento” é inequívoco no campo
das habilidades para aplicação e treinamento
de técnicas e de procedimentos, consolidados em práticas
seguras. Oferecer ao aluno de graduação, ao
pós-graduando, ou ao médico que deseja tão
somente se aprimorar, a possibilidade de desenvolver suas
habilidades motoras, incorporar fundamentos básicos
de metodologia científica e da técnica operatória,
sem prejuízo ao ser humano é uma das missões
do laboratório de desenvolvimento de habilidades.
Neste ambiente, transformações ocorrerão,
fruto de novas formas de pensar a educação,
de organizar e dinamizar os processos pedagógicos,
instaurando uma outra cultura que se concretiza por meio
de processos curriculares e avaliativos consolidados.
As diretrizes curriculares propugnam a inserção
precoce dos alunos nas atividades práticas, a introdução
de técnicas capazes de instituir uma lógica
inovadora nas relações entre conhecimentos
básicos e profissionalizantes e a integração
das atividades de ensino, de pesquisa e de extensão,
objetivos estes que demandam participação
efetiva dos laboratórios de desenvolvimento de competências/habilidades.
Louis Pasteur dizia, em aula inaugural proferida na Universidade
de Lille, no século XIX, que os acontecimentos favorecem
apenas aqueles que estão preparados. Claude Bernard
enfatizava ser a análise experimental em laboratório,
o meio essencial para o médico buscar a explicação
da vida nos estados normais e de doença. Destarte,
aduziríamos: o cirurgião que visa o êxito
no seu futuro exercício profissional não pode
prescindir de treinamento no laboratório para o desenvolvimento
de competências. Arrogância, indiferença
e infalibilidade não combinam com cirurgia. A maturidade
do saber é que nos torna mais cônscios de nossas
limitações.