Atuação
em conjunto das entidades leva à formação
da Ordem dos Médicos do Brasil
A atual realidade da Medicina brasileira, com intromissão
de outros profissionais no ato médico, precárias
condições de trabalho, má remuneração
tanto no serviço público quanto nos convênios,
atendimento inadequado, formação profissional
deficiente e proliferação das escolas médicas,
está fazendo com que as entidades médicas,
nacionais e regionais, se unam e atuem juntas, reafirmando
o velho ditado que “a união faz a força”.
O resultado dessa força, que tem como objetivo mudar
essa triste realidade, está levando à discussão
da organização de uma entidade única,
que agregue os Conselhos de Medicina, as Sociedades Médicas,
as Sociedades de Especialidades e os Sindicatos: a Ordem
dos Médicos do Brasil.
Essa é uma discussão que está apenas
iniciando, mas os dirigentes das quatro entidades nacionais
– Conselho Federal de Medicina, Associação
Médica Brasileira, Federação Nacional
dos Médicos e Confederação Médica
Brasileira – concordam que, mais do que nunca, o médico
hoje precisa participar ativamente de suas entidades para
enfrentar as principais questões que afetam o exercício
da Medicina no país. Diante das dificuldades enfrentadas,
o médico tem que estar em sintonia com as lutas e
ações das suas entidades, pois ele aparece
como uma peça fundamental no processo de reversão
da atual situação.
Segundo o Presidente da Associação Médica
Brasileira (AMB), Eleuses Vieira de Paiva, o papel das entidades
médicas hoje começa a ser rediscutido amplamente,
principalmente no âmbito associativo e dos conselhos,
com a proposta da criação de uma entidade
única, a Ordem dos Médicos do Brasil.
- O trabalho conjunto que atualmente vem sendo desenvolvido
pela AMB e o CFM tem apresentado bons resultados para a
classe médica e também para a população.
Isso tem ocorrido em virtude de nossas ações
terem sido extremamente rápidas e coordenadas. Ou
seja, o caminho para bons resultados é, sem dúvida,
a unidade médica nacional. Fragmentados em várias
entidades, como os médicos encontram-se hoje, bons
resultados também poderão ser obtidos, porém
ao custo de muito mais tempo e maior desgaste – avaliou.
Os médicos, continuou Eleuses de Paiva, devem se
associar às entidades e participar do movimento médico
para aglutinar forças. Sem isso, não conseguiremos
resolver os nossos problemas, que não são
poucos, e também da população, com
a oferta de uma assistência de qualidade.
- A AMB e o CFM já trabalham assim, de forma unida,
buscando soluções mais rápidas para
os infortúnios que afligem a classe médica.
Porém, a união de todos é que, sem
dúvida, fará a diferença neste processo.
Por isso, os médicos devem se associar às
suas entidades de classe e participar ativamente dos movimentos
por elas desenvolvidos – frisou.
Eleuses de Paiva enfatizou ainda que a AMB tem se empenhado
prioritariamente na implantação da Classificação
Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos
(CBHPM), um novo referencial, acima de tudo ético,
de honorários médicos.
- Estamos coordenando um movimento nacional pela sua implantação
que, até o momento, tem mostrado uma unidade muito
grande, especialmente na região Nordeste. De lá,
surgiu a idéia de criação do Movimento
Nordestino, mobilização que engloba nove Estados,
todos unidos pela implantação da CBHPM. Além
desse desafio, temos outros pela frente, como a abertura
indiscriminada de novas escolas médicas, as discussões
acerca da criação da Ordem dos Médicos
do Brasil, entre outros – observou.
Para o Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM),
Edson de Oliveira Andrade, hoje e sempre, as entidades representam
a força da união de uma classe médica.
Sozinho, o médico fica à mercê de seus
exploradores, sejam eles públicos ou privados. Organizando-se
através de suas entidades, ele pode encontrar a força
necessária para defender seus interesses, individuais
e coletivos.
- A eventual omissão ou fragilidade de uma diretoria
de entidade não pode ser transformada num desprezo a
ela, desacreditando de seus potenciais. Se esse for o caso,
deve o médico mudar seus dirigentes, pois estes são
passageiros e a entidade deve ser fortalecida sempre –
afirmou.
O homem, acrescentou Edson de Oliveira, desde os primórdios
da história, aprendeu que a união com seus
pares é a garantia de sua força. No exercício
profissional, este ensinamento é reforçado,
pois são muitos os obstáculos de forças
poderosas para submetê-lo aos interesses de seus patrões.
Na prática médica de hoje em dia, assistimos
a tais investidas, tanto no setor público como no
setor privado. A remuneração e as
condições de trabalho são humilhantes
e só a organização em torno das
entidades, que devem ser combativas e atuantes, pode levar
à superação das dificuldades e à
conquista de seus objetivos.
- Quando o médico se abstém de participar
do movimento classista, tende a ficar isolado e deixa suas
entidades nas mãos de oportunistas, que só
pensam em se perpetuar no poder, muitas vezes, às
custas de acordos espúrios com aqueles que vivem
da exploração de nosso trabalho – considerou.
De acordo com Edson de Oliveira, o CFM tem tido uma atuação
incansável na defesa do médico e da Medicina,
sem abrir mão da atividade judicante e de fiscalização.
Durante o X Encontro Nacional das Entidades Médicas,
realizado em maio de 2003, o CFM consolidou as suas
principais bandeiras de luta da classe: em defesa do ato
médico e pela aprovação do projeto
de lei que regulamenta a Medicina; pela implantação
do Plano de Carreira dos Médicos do SUS, nos moldes
do Judiciário, incluindo os médicos do Programa
de Saúde da Família; contra a abertura indiscriminada
de escolas médicas, pela aprovação
do projeto de lei que impede a criação de
novos cursos por dez anos e a avaliação dos
existentes; e pela implantação da Classificação
Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos
(CBHPM), movimento que cresce a cada dia em todo Brasil,
e alguns Estados já conquistaram vitórias
significativas após quase dez anos sem reajuste de
honorários.
- Estas bandeiras, embora tenham a liderança decisiva
do Conselho Federal de Medicina, tornaram-se referenciais
das lutas de todas as entidades nacionais. Vivemos um momento
tão importante de união das entidades que
uma quinta bandeira começa a ser içada com
muita força, que é a criação
da Ordem dos Médicos do Brasil. A Ordem significaria
a fusão dos Conselhos de Medicina com as Associações
e Sociedades Médicas, aumentando nossa força
e desburocratizando a vida dos médicos. O movimento
sindical, tradicionalmente independente por força
da legislação brasileira, deve participar
ativamente da criação da Ordem e discutir
sua inserção neste novo patamar de organização
da nossa classe – ressaltou.
De acordo com o Presidente da Confederação
Médica Brasileira (CMB), Waldir Araújo Cardoso,
as entidades médicas têm fundamentos jurídicos
diferentes, sejam elas Conselho, Sindicato ou Sociedade
Médica, mas, na prática, todas agem como integrantes
da sociedade civil organizada e têm contribuído
para a defesa do bom exercício da Medicina e pela
melhoria da qualidade da atenção à
saúde.
- A participação no movimento médico
tem sido importante desde a resistência à ditadura,
até a luta pelo estado democrático de direito,
como pela conquista de um sistema de saúde legalmente
equânime. As entidades atuam ainda em defesa dos legítimos
interesses do médico. No aspecto científico,
por exemplo, garantem a atualização da categoria
e o seu contínuo aperfeiçoamento sendo a única
forma organizada que o médico tem para manter-se
em dia com o avanço da Medicina – afirmou.
Associar-se às entidades, acrescentou Waldir Cardoso,
e participar ativamente delas é uma das formas que
o médico tem de exercer sua cidadania. Cidadão
é aquele que organiza-se para influir nos destinos
de seu país, de sua cidade, de sua profissão.
Não consigo ver aquele que exerce a nobre arte da
Medicina como um ser alienado. Não o somos e, como
profissionais que a sociedade tem como referência,
devemos demonstrar isto com atitudes concretas.
- A Confederação Médica Brasileira
tem no sindicato de base o esteio de sua atuação,
considerando que as ações concretas do movimento
se dão a nível local. Neste sentido, a Confederação
tem o papel de articular o movimento e temos trabalhado
em absoluta sintonia com as demais entidades médicas
nacionais. Ajudamos a organizar e participamos do X Encontro
Nacional das Entidades Médicas, realizado em 2003,
e consideramos os resultados daquele encontro as bandeiras
de luta dos médicos brasileiros – destacou.
Segundo o Presidente da Federação Nacional
dos Médicos, Héder Murari Borba, todo profissional
tem a sua entidade representativa, portanto, não
poderia ser diferente com os médicos. Para que o
médico possa se relacionar com instituições,
tanto governamentais quanto privadas, é preciso que
exista uma entidade organizada que represente a categoria
profissional.
- O grande problema foi a proliferação de
um número enorme de entidades e, muitas vezes, essas
entidades não dão o retorno que os médicos
desejam, apesar deles estarem pagando suas anuidades. Por
isso, a FENAM, há mais de 15 anos, defende a fusão
de todas as entidades na Ordem dos Médicos do Brasil.
Atualmente, o CFM e a AMB têm feito esforços
no sentido de discutir a formação dessa entidade
única, no entanto estão isolando o movimento
sindical desse processo. Estamos vendo todo uma discussão
sobre a Ordem, que se dá através dos meios
de comunicação das entidades, sem que haja
a participação do movimento sindical, como
era de se esperar – considerou.
Héder Murari também enfatizou que o médico
hoje, sob ponto de vista do seu exercício profissional,
tem vários vínculos trabalhistas, sendo os
principais o Sistema Único de Saúde (SUS)
e os planos de saúde. Para o Presidente da FENAM,
não é possível se discutir nada, no
que se refere à política nacional de saúde,
se os médicos não participarem dos sindicatos,
porque hoje até o Governo federal recorre, para estabelecer
ações em saúde, à opinião
das entidades da sociedade civil organizada.
- Portanto, esse é outro motivo fundamental para
que os médicos realmente se associem e participem
das suas entidades. Todas as decisões, que estão
tratando da sua profissão, estão passando
por uma discussão com as entidades. O Governo federal,
por exemplo, lançou o Programa de Saúde da
Família e a sua regulamentação tem
sido objeto de debate com as entidades. Atualmente, estamos
lutando junto ao Governo Federal para a instituição
da carreira do médico no Brasil, sem contar com o
que o movimento médico tem feito em relação
à defesa dos honorários nos convênios
– comentou.
O problema maior, continuou Héder Murari, é
que, em função da dispersão do movimento
médico, a nossa força acabou diminuída
na medida em que há muitas entidades falando a mesma
coisa. As bandeiras da FENAM são as mesmas do CFM
e da AMB. A dificuldade, que as entidades têm tido,
é de ação comum em prol do médico.
Essa é uma questão que se perdura e, no meu
ponto de vista, é o principal problema que os médicos
têm que reclamar, forçando as entidades a agir
de maneira unitária na defesa dos direitos da categoria.