O
mínimo não é o suficiente
Jandira Feghali, médica, deputada federal pelo PCdoB/RJ
e vice-presidente da Frente Parlamentar da Saúde
Fruto da luta pela PEC 169, que destinava 30% dos recursos
da Seguridade para a saúde, além de 10% dos
Estados e Municípios, a Emenda Constitucional
nº 29 foi uma grande conquista. Promulgada em 2000,
a emenda foi estabelecida como mecanismo transitório
até que a regulamentação, via projeto
de lei complementar, fosse aprovada pelo Congresso Nacional.
O avanço foi, pela primeira vez, vincular recursos
mínimos para ações e serviços
de saúde na Constituição Federal.
Com outros critérios e resultado arrecadatório
menor que a PEC 169, a emenda estabeleceu que a União
deveria investir do ano 2001 ao ano 2004, o valor apurado
no ano anterior, corrigido pela variação nominal
do Produto Interno Bruto – PIB. Para Estados e Municípios,
o valor empregado não poderia ser inferior a 12%
e 15% da arrecadação de impostos, respectivamente.
A própria emenda prevê que, na ausência
da lei complementar, a partir do exercício financeiro
de 2005, aplicar-se-á à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios o mesmo
estabelecido até 2004.
Assistimos hoje a ineficiência, em várias regiões,
das políticas de saúde implementadas ou até
a inexistência de uma política planejada e
estruturada. O SUS tem grandes avanços e as definições
constitucionais tem sido a nossa garantia. No entanto, vemos
como em nosso Estado, em que não temos o cumprimento
do mínimo constitucional de recursos para a saúde
e muitos municípios cumprem o mínimo, que
não pode ser teto, pois não tem sido suficiente
para atender a população que depende exclusivamente
do Sistema Único de Saúde. Esta triste realidade
não parece repercutir na orientação
das políticas públicas de saúde que,
com várias exceções, insistem em aplicar
apenas o mínimo mesmo sob a clara necessidade de
mais custeio e investimentos. Não podemos mais conviver
com extensas filas, falta de acesso, dificuldade de atendimento
nas emergências, falência da atenção
básica, como no município do Rio de Janeiro,
com o sofrimento de uma população cada vez
mais excluída das políticas públicas
que deveriam ser universais.
O SUS nacionalmente é subfinanciado, mas as contribuições
que lhe sustentam, apesar de rubricadas para a seguridade
social, têm sido desviadas para programas assistenciais
que tem fonte própria. Isto ocorre no governo federal,
nos governos estaduais, incluindo o nosso, quando utilizam
o dinheiro do SUS para pagar cheque cidadão e restaurante
popular.
Neste cenário, temos lutado com todos os mecanismos
disponíveis para garantir a completa implantação
do Sistema Único de Saúde. Este é o
único caminho para prover aos brasileiros serviços
de saúde dignos. Cabe à população
defendê-lo e, aos governantes, destinar os recursos
suficientes para ultrapassar o caos vivido atualmente, mesmo
que isto signifique aplicar mais do que o previsto.
Relevante tem sido nossa luta no Congresso Nacional pela
aprovação do projeto de lei complementar que
regulamentará a Emenda Constitucional nº 29.
O projeto já foi aprovado pelas Comissões
de Seguridade Social e Família, Finanças e
Tributação e de Constituição
e Justiça e está na pauta da convocação
extraordinária do Congresso Nacional de janeiro de
2006.
O Projeto de Lei Complementar visa regulamentar o §
3º do art. 198 da Constituição Federal,
definindo o montante de recursos a ser destinado para ações
e serviços públicos de saúde pela União,
estados, Distrito Federal e municípios; os critérios
de rateio e a fiscalização e controle desses
recursos.
Depois da aprovação do PLP, a União
destinará à saúde 10% de suas receitas
correntes brutas, o que significa um acréscimo de
R$ 8 bilhões ao orçamento da saúde.
Os estados e municípios continuarão a utilizar
12% e 15 %, respectivamente, de seus orçamentos próprios
no setor, pois essa questão já é decisão
constitucional e, portanto, não pode ser alterada
por lei. O projeto estabelece, ainda, mecanismos de controle
de repasses e de utilização de recursos nas
ações e serviços de saúde.
É grande a ameaça aos direitos humanos em
nossa cidade. Não bastasse a insegurança das
ruas, vivemos a constante violação do direto
à saúde. A gestão municipal é
incapaz de aplicar e gerir os recursos da saúde,
de utilizar os instrumentos públicos de atenção
à população, de respeitar os profissionais
de saúde.
A crise é crônica e não se limita à
estrutura hospitalar. A atenção básica
beira à falência. A piora de vários
indicadores de saúde e o perfil das pessoas atendidas
nas emergências comprovam esta afirmação.
O desabastecimento de insumos dos hospitais, a falta de
equipamentos e o déficit de recursos humanos permanecem
nas páginas dos jornais, nas denúncias repetidas,
nas cenas dos telejornais, nos dados coletados, na angústia
dos profissionais, mas principalmente no sofrimento dos
usuários.
Apoiamos a intervenção do Ministério
da Saúde no início deste ano, medida extrema
diante da verdadeira “omissão de socorro”
da Prefeitura. É importante realçar a prioridade
que o Ministério da Saúde tem dado ao nosso
Estado, particularmente à cidade e à Região
Metropolitana. Registro que há bons técnicos
na estrutura da gestão municipal, mas falta um comando
político competente e comprometido com a vida da
população, que os impede de aplicar seus conhecimentos
de forma adequada. Predomina o desprezo, a indiferença,
a omissão e o descumprimento da Constituição
e das leis.
Por fim, ao observar o Brasil hoje, percebemos que o Estado
é o responsável central pelas políticas
de saúde, não apenas no âmbito do Ministério
da Saúde, mas na transversalidade do conjunto de
ações políticas. O desafio é
compreender a universalidade do direito e a responsabilidade
do Estado.
Tenho a responsabilidade de dizer que nunca é tarde
para se recuperar conceitos que a ideologia modernizante
tentou jogar no lixo; nunca é tarde para se recuperar
a saúde, porque ela não é mercadoria.
Medicamento não é produto de prateleira. Prevenção
e cura não são ações dicotômicas,
mas integradas, porque saúde é direito do
cidadão e dever do Estado. Estas palavras podem parecer
um chavão ultrapassado, mas não são.
Portanto,
nosso desafio é procurar saídas, recuperar
conceitos e atualizar nossa ação, tendo a
saúde como realidade concreta e prioridade estratégica;
como um bem da cidadania, assim como os direitos fundamentais
de comer, de dormir, de morar e de viver com dignidade.