Realmente
precisamos diminuir o número de cesarianas?
Carlindo Machado e Silva Filho - Presidente da SOMERJ
Como pediatra e neonatologista não posso negar as
vantagens que o parto normal, eutócito, traz para
os recém-nascidos, como a diminuição
da síndrome de angústia respiratória
e da colonização por germes, o que, em condições
normais, é muito melhor do que a colonização
por germes hospitalares, como ocorre no parto cirúrgico,
além do fato do leite destas mães apresentarem
anticorpos contra os germes da flora materna.
Também
não se discute que as cesarianas desnecessárias
são inaceitáveis. É inadmissível
que se faça parto cirúrgico porque é
véspera de um feriado prolongado ou “para o
neném nascer no mesmo dia que o avô”.
Agora, causa estranheza a preocupação da Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS) em buscar um
pacto para diminuir o número de cesarianas no setor,
sob a alegação de que “o Brasil é
campeão de cesarianas” e que se faz muito mais
cesarianas na saúde suplementar do que no SUS.
Analisemos
os diferentes argumentos com que nos defrontamos em recente
reunião na ANS:
“A
cesariana é causa de aumento da morbi-mortalidade
materna”. Não há qualquer trabalho que
comprove cientificamente, sem contestações,
que a mortalidade materna aumente com o parto cirúrgico.
Talvez se comprove um aumento na morbidade. Além
disso, em 2004, segundo a ANS, ocorreram 2.552.766 nascimentos,
sendo que 87,9% no SUS, com taxa de 27,53% de cesarianas;
e 12,1% no setor de saúde suplementar, com um índice
de 79,7% de cesarianas. Eu pergunto, se houve mais, em números
relativos, morbi-mortalidade materno-fetal no primeiro ou
no segundo grupo? Será que o motivo que leva a esta
“discrepância” não é a limitação
do pagamento de partos cirúrgicos no SUS? Cabe lembrar
que é muito mais grave se deixar de fazer uma cesariana
necessária do que se fazer uma desnecessária.
“O
Brasil está na contramão dos países
desenvolvidos em número de cesarianas”. Vale
lembrar que o Brasil está na contramão dos
países desenvolvidos em coisas mais importantes,
tais como saúde, educação, saneamento
básico, habitação, emprego, salário
e distribuição de renda.
“As cesarianas causam prematuridade”. Será
que este aumento de prematuros não está ligado,
majoritariamente, à melhora do atendimento neonatal,
que permite interrupções precoces de gravidez
em situações de risco para a mãe e
o feto?
“A
mulher não pode escolher fazer cesariana, a decisão
tem que ser do médico”. Exceto em situações
em que a cesariana está, formalmente, indicada ou
contra-indicada, a mãe pode sim escolher o tipo de
parto que prefere ter. O artigo 56 do Código de Ética
Médica é claro quando estabelece que “é
vedado ao médico desrespeitar o direito do paciente
de decidir livremente sobre a execução de
práticas diagnósticas ou terapêuticas,
salvo em caso de iminente risco de vida”. Na escolha
do parto, cabe ao médico explicar as vantagens e
desvantagens de cada método e acatar a vontade da
paciente.
Em
tudo isso, nos preocupa ver ventilada, como estratégia
para diminuir o número de cesarianas no setor suplementar,
“uma espécie de premiação às
operadoras que diminuírem o número de cesarianas”
e a afirmação de que “por enquanto,
não estão previstas sanções
às empresas que descumprirem a meta estabelecida”.
Será
que veremos na saúde suplementar, em nome de uma
pseudo humanização, centros de partos, onde
os partos são feitos por enfermeiras obstetras, diminuindo
o custo e a qualidade do atendimento prestado?
A
quem interessa essa interferência no direito da mãe
e do médico de decidirem livremente o melhor tipo
de parto para cada paciente?
Esperamos
ver respondidas todas essas indagações.
Em
tempo: Enfim, uma boa notícia na saúde pública
do Município do Rio de Janeiro: a saída do
antigo Secretário, segundo ele, para disputar as
eleições em outubro. O novo Secretário,
que aliás é médico, não precisará
de muito para superar um antecessor cuja “grande contribuição
à saúde” foi a abertura da “Casa
de Parto”.