Bioética
Quântica - ou uma ética para todos os seres1
Rodrigo Siqueira-Batista, Professor Titular
das Disciplinas de Clínica Médica e de Filosofia
– FESO; Médico do Serviço de Clínica
Médica, Hospital Universitário Clementino
Fraga Filho – UFRJ; Membro da Comissão de Bioética
– CREMERJ. Doutor em Ciências – FIOCRUZ;
Pós-doutorando em Física – CBPF.
A bioética, como a filosofia,
é uma filha da cidade. De fato, se o pensamento filosófico
pode ser considerado um epifenômeno ao surgimento
da pólis grega,1 foram
as transformações das sociedades laicas e
plurais contemporâneas que possibilitaram a emergência
da bioética na segunda metade do século XX.2
Em sua formulação originária pelo oncologista
Van Rensslaer Potter, em 1970, a bioética foi concebida
como uma nova ética científica capaz de dar
respostas à deterioração das relações
homem-natureza — na medida em que o Homo sapiens sapiens,
para Potter, se conduziria como um verdadeiro câncer
para o planeta —, cujos objetivos principais seriam
garantir a perpetuação da espécie humana
e de sua qualidade de vida.3
Sem embargo, ao longo destes trinta e cinco anos, a disciplina
adquiriu diferentes conotações, podendo-se
perceber variações do tema, as quais incluem
desde uma ética aplicada às ações
pertinentes ao saber-fazer biomédico até uma
reflexão moral dirigida às questões
do planeta Terra em sua totalidade, como nas concepções
de Leonardo Boff.4
A despeito dos diferentes matizes incorporados pela bioética5,
duas funções podem ser consideradas inerentes
à disciplina: (1) a descritiva e (2) a prescritiva,
as quais permitem, respectivamente, explicitar os conflitos
e propor a melhor forma de agir diante deles. Recentemente,
já no século XXI, os bioeticistas Fermin Roland
Schramm e Miguel Kottow propuseram, a partir da correta
articulação de (1) e (2), a existência
de uma função (3) protetora, a qual remonta
ao sentido originário da palavra grega ethos (’çèïò),
empregada, no mundo de Homero, com a conotação
de fornecer “abrigo” — ou “amparo”
— aos animais.6
A formulação de Schramm-Kottow explicita a
perspectiva protetora da bioética, a qual tenciona
o amparo de um outro que esteja em situação
desfavorável, compreendendo, como apresentado em
outros escritos,7 uma secular
matriz compassiva. Nestes termos, propôs-se a compaixão
laica — tipificada pelo acolhimento inconteste —,
a qual pressupõe o abrigo ao outro, o oferecimento
de morada, asilo e guarida — como no ethos homérico
—, com a mesma intensidade e complacência segundo
a qual todas as águas são recebidas, de modo
incontendível, pela silenciosa imensidão do
oceano.8
Este movimento de acolhida, incondicional, típico
da compaixão laica, dependerá, em última
análise, da compreensão de que há uma
condição de igualdade entre os seres vivos,
a qual está radicada nas duas dimensões inextirpáveis
do existir, o nascer e o morrer. Tal igualdade essencial
— em termos de suas mais profundas e íntimas
raízes — inclui tudo o que vive, na medida
em que se nasce e se morre, não existindo vida que
não tenha “passado” por um vir-a-ser
e que, necessariamente, não acabe por se esvair em
um deixar-de-ser. A partir desta constatação,
torna-se possível situar no mesmo plano todos os
viventes, os quais, por definição, são
espaço-temporalmente limitados.
Ato contínuo, a atitude diante de um igual implica
o amparo irrestrito, uma vez que tal compreensão
desta igualdade essencial torna inconsistente que o eu se
veja como completamente independente (e apartado) do outro.
Tal é o fundamento da compaixão laica em uma
prima enunciação: amparo que se estabelece
entre os viventes — havendo distinção,
mas não separação, entre aquele que
“recebe” e aquele que é “recebido”
— consistindo em uma acolhida à igualdade constitutiva
da condição de vivente.
Esta propedêutica formulação da igualdade
essencial intrínseca aos seres vivos pode ser concebida,
de outro modo, como uma abstração de algo
muito mais essencial, a qüididade de todos os seres,
a qual tem sido descrita a partir de diferentes metáforas,
quer religiosas — o Deus cristão ou a Natureza
Búdica —, quer filosóficas — o
Deus spinozista ou a Vontade schopenhauriana — quer
científicas — a realidade quântica. De
fato, a teoria quântica propõe a existência
de uma unidade básica no universo, de modo que há
constitutiva interdependência de todas as coisas,9
tal qual o expresso por David Bohm:
[é] enganoso e sem dúvida errado supor, por
exemplo, que cada ser humano é uma realidade independente
que interage com outros seres humanos e com a natureza.
Em vez disso, todos esses são projeções
de uma totalidade única. [Bohm, 1992, p. 275]10
Com efeito, é possível pensar, a partir destes
pressupostos, em uma ética qüididativa, empregando-se
como alegoria a teoria quântica, como discutido no
filme What the bleep do we know? (Quem somos nós?):
No nível subnuclear mais profundo de nossa realidade
somos um. Você e eu, literalmente, somos um.
[Chasse et al., 2005]11
Assim, pois, esboça-se a primeira formulação
de uma ética amplamente entendida,12
capaz de incluir, em seu âmago, todos os seres —
presentemente denominada bioética quântica.
Não se trata, obviamente, de fundamentar o discurso
bioético na física contemporânea, mas,
outrossim, de utilizá-la como imagem capaz de apontar
para a qüididade de todos os seres, mantendo a plena
atenção para não confundir, de modo
espúrio, o dedo e a Lua...
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Vernant J-P. Mito e Pensamento entre os Gregos: Estudos
de Psicologia Histórica. São Paulo: Difusão
Européia do Livro, Ed. da Universidade de São
Paulo, 1973.
2. Schramm FR. As diferentes abordagens da bioética.
In: Palácios M, Martins A, Pegoraro O (orgs.). Ética,
ciência e saúde. Petrópolis: Vozes;
2002. pp 28-45.
3. Potter VR. Bioethics, science of survival. Biol Med 1970;
14:173-153.
4. Boff L. Saber Cuidar. Ética do humano –
compaixão pela Terra. 8a ed. Petrópolis: Vozes;
2002.
5. Ferrer JJ, Alvarez JC. Para fundamentar a bioética.
São Paulo: Loyola, 2005.
6. Schramm FR, Kottow M. Principios bioéticos en
salud pública: limitaciones y propuestas. Cadernos
de Saúde Pública 2001; 17: 949-956.
7. Siqueira-Batista R. Às margens do Aqueronte: finitude,
autonomia, proteção e compaixão no
debate bioético sobre a eutanásia. Tese de
doutorado. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde
Pública Sérgio Arouca, FIOCRUZ, 2006.
8. Siqueira-Batista R. Bioética e compaixão.
Jornal do Cremerj 2004; 17(1): 15.
9. Capra F. O Tao da física. São Paulo: Cultrix;
1983.
10. Bohm D. A totalidade e a ordem implicada. Uma nova percepção
da realidade. São Paulo: Cultrix; 1992.
11. Chasse B, Vicente M, Arntz W. Quem somos nós?
EUA: PlayArte, 2005.
12. Schramm FR. A bioética, seu desenvolvimento e
importância para as ciências da vida e da saúde.
Rev Bras Cancerol 2002; 48:609-615.
(Footnotes)
1 Dedicado ao querido irmão Romulo.