Associação Médica em Revista
  Saúde Pública

O bom combate
Paulo Cesar Geraldes, Presidente do CREMERJ

O ano se aproxima de seu fim e as perspectivas que despontam para 2007 não são nada animadoras. O prazo dado pela Justiça para a substituição dos médicos terceirizados por médicos concursados, nos hospitais do Estado do Rio, chega ao fim em dezembro, sem que o concurso tenha sido realizado. Caso a decisão judicial seja cumprida, os hospitais estaduais ficarão sem médicos terceirizados e, evidentemente, sem os concursados, em resumo, sem médicos.

Na área federal, já foi anunciado que não ocorrerão aumentos salariais, nem mesmo para repor as perdas inflacionárias. E, numa manobra diversionista, estão querendo passar a imagem de que o SUS é um sistema assistencial racista (???). O nosso tão combalido e semi-implantado Sistema Único de Saúde (SUS) é tudo, menos racista. Ao contrário, é o mais democrático sistema assistencial e se fosse realmente colocado em plena atividade, conforme o planejado, seria também o melhor sistema nacional de saúde.

O município do Rio de Janeiro, detentor da maior rede hospitalar do Brasil, ganhou de novo a gestão plena, mas já se sabe que este fato não significa melhoria da assistência pública municipal de saúde. Não se trata de futurologia, mas de simples constatação de que o que não foi executado em seis anos de governo não deixa nenhum alento de que o seja nos dois anos restantes de gestão (falta de).

Apesar de todo o abandono assistencial a que a população é relegada, os médicos, vítimas do mesmo sistema, continuam trabalhando, se esforçando para superar os obstáculos impostos pelos donos do poder. Continuam a trabalhar, mesmo não havendo condições dignas e éticas de trabalho. Prosseguem na sua missão de salvar vidas e continuam a salvá-las, mérito de seu denodado esforço.

É exatamente destes fatores que advém a força da categoria médica. Nós não desistimos nem mesmo quando tudo indica que seremos derrotados em nossos anseios, quando tudo leva a crer que não adianta insistir porque não vamos conseguir exercer a nossa arte.

O estofo da formação médica diferencia o médico dos demais profissionais de saúde. O médico inicia seu aprendizado com o cadáver sem identificação, explorando os planos anatômicos e orgânicos, defrontando-se de modo permanente com a morte e seu cortejo de intrínsecas conseqüências familiares e sociais. O médico estuda a origem e evolução das doenças e, portanto, entende os efeitos provocados pelos quadros patológicos em seus clientes, e, muito além deles, em seus próximos, naqueles que deles gostam, deles dependem ou com eles convivem.

Forjados no fio da navalha, que é o limite entre saúde e doença, vida e morte, os médicos não serão vencidos, nem pelo descaso das autoridades, pelos salários ridículos, pelas más condições de trabalho, pelas enfermarias superlotadas, pela falta de medicamentos e pelos equipamentos quebrados, sucateados ou inexistentes. Vamos continuar a nossa saga humanista. Manteremos a fibra e energia que vem da gênese da certeza de que estamos lutando o bom combate. E se ele assim o é, sobreviveremos.

Amanhã será um novo dia. Um bom dia.

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