CA SOMERJ - Sociedade Médica do Estado do Rio de Janeiro
 
 
Associação Médica em Revista
  Opinião

A TISS é uma DISS
Paulo Cesar Geraldes, Conselheiro do CREMERJ, Médico Psiquiatra, Doutor em Saúde Mental, Mestre em Saúde Pública e Presidente do CREMERJ (2005-2007)


Estava o Controlador-Mor Público das Empresas-de-Saúde-Supletória-Não-Pública em seu Gabinete, quando eis que adentra esbaforido, e se esparrama no sofá bizantino, o Representante-Geral das Empresas-de-Saúde-Supletória-Não-Pública, e inicia sua algaravia interminável.

“- Senhor Controlador, diz ele, uma catástrofe se avizinha, pois não estamos mais conseguindo conter o aumento permanente, avassalador e crescente dos nossos custos. Todo o nosso lucro se esvai em pagamento de procedimentos, próteses, órteses, hospitais, clínicas, laboratórios, etc. Ainda bem que pelo menos temos conseguido controlar os custos em relação aos médicos, pois como Vossa Excelência bem se recorda, até hoje estamos usando, com sua anuência e beneplácito aquela tabela de pagamentos do século passado, a da década de 90.”

“- Isto tudo com a minha colaboração efetiva” – pavoneia-se o Controlador-Mor – “pois como o Senhor Representante-Geral bem se lembra, até hoje venho amarrando a adoção desta nefanda tabelinha, a CBHPM, que com certeza já teria quebrado toda a Saúde-Supletória-Não-Pública.”

Neste momento o Representante-Geral das ESSNP levanta-se de sopetão debruça-se sobre a escrivaninha e, em tom de voz silente, sussurra nos ouvidos do Controlador-Mor Público das ESSNP:

“- Com todo o devido respeito e a vênia possível, nós das ESSNP inventamos um método infalível para resolver definitivamente os nossos problemas econômicos. Mas, precisamos que Vossa Reverendíssima se digne a apadrinhá-la, inclusive assumindo sua autoria.”

Percebendo o olhar embevecido, dourado (como uma moeda de ouro) e sonhador do Controlador - Mor, o Representante-Geral vendeu o seu peixe.

“- O nome da geringonça é DISS, que significa Divulgação de Informações Sigilosas em Saúde. Trata-se de uma papelada a ser preenchida pelos bóias-frias, os médicos que trabalham para as ESSNP, que informarão o diagnóstico da clientela, o início da doença, o tempo previsto para o tratamento, os antecedentes familiares e, tudo o mais que possa ser interessante, para alimentar o nosso forno de glosas. Desta forma poderemos anular contratos quando o início da doença for anterior à sua pactuação, saberemos quem são os pacientes indesejáveis e para os quais não venderemos nenhum dos nossos planos assistenciais e, se já o tivermos feito, incontinenti cancelá-los-e-mos, além de outros sub-produtos bastante interessantes. Para nos livrarmos dos problemas com os Conselhos de Medicina quanto à questão da obrigatoriedade ética do sigilo médico, na última linha do formulário, colocamos bem grande, em caixa alta, os seguintes dizeres: Assinatura do Usuário (viu que moderno, não é cliente, nem paciente, é usuário). E, em letra bem pequena, e em cor amarela desbotada, a seguinte expressão: Autorizo a divulgação de todas as informações sobre minha saúde.

“- E se mesmo assim os médicos não aceitarem?, questionou o Controlador-Mor.”
“- Ué, o de sempre, a gente não paga a consulta, rebateu o Representante-Geral.”
“- Caramba, é mesmo. Mas qual a justificativa para implantar a DISS?, retornou o Controlador-Mor.”
“- Gente, mas Vossa Graça está hoje com muito pouca imaginação, arre!! Basta dizer, por exemplo, que é para facilitar a obtenção de informações para estudos epidemiológicos e a definição de políticas em saúde, engatilhou já meio ressabiado o Representante-Geral.”
“- Não sei não, se a gente não colhe estas informações do sistema público, o SAIUS – Sistema de Ações Integradas e Unificadas de Saúde – que tem 150 milhões de Usuários (moderníssimo), porque colher dos 35 milhões de Usuários (ultra moderno) das ESSNP?”, xequemateou o Controlador Mor, e ainda complementou: “E este nome hem, DISS, não cola mesmo!!!”
“- Olha aqui, ó Meritíssimo, o digníssimo está muito chato hoje, cheio de objeções inauditas”, retrucou o Representante-Geral, agora já visivelmente irritado. “Não tem problema. A gente muda o nome, para ninguém desconfiar. Que tal TISS, hein? Troca de Informações em Saúde Suplementar. Pronto. Está feito.”
“ - Genial, resolvemos todos os problemas da Saúde!!! Já podemos descansar.”, acatou o Controlador-Mor.

E, os dois, o Controlador-Mor e o Representante-Geral saíram do Gabinete valsando, de mãos dadas, prenhes da maior alegria e bem-aventurança.

Neste momento, o Super-Médico acordou, suado e assustado, pensando intimamente, “Que Pesadelo. Ainda bem que tudo não passou de um mau sonho.”

Saiu do quarto, entrou na sala, abriu a porta da rua e recolheu o jornal do tapete. E lá estava na manchete do “O Mundo”: AUTORIDADES DA SAÚDE IMPLANTAM A TISS.

E, foi então que o Super-Médico internalizou: “Ou nós nos mobilizamos verdadeiramente, ou a prática da Medicina está definitivamente condenada ao desaparecimento.”

É isso aí, companheiro, Navegar é Preciso.

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